"Pessoas, animais e Internet"?
Por Jos� Magalh�es
Uma amiga telefonou-me, exultante, porque "finalmente" algu�m tinha "posto o dedo na ferida" e perguntando-me se " a partir de agora" eu ia continuar a fazer "esfor�os danados para ocultar aquilo". A causa deste estado de esp�rito era um artigo do Prof. Boaventura de Sousa Santos, com o picante t�tulo acima clonado (Vis�o- 6.10.97).
Trata-se de uma reflex�o sugestiva sobre o aumento da solid�o e da inseguran�a em sociedades como a nossa, em que o Estado, a fam�lia, o patronato, os amigos e os vizinhos j� n�o s�o o que eram, coisa que gera novas estrat�gias de relacionamento. BSS aproxima duas delas, que "aparentemente nada t�m em comum": a corrida � compra de animaizinhos de estima��o e a explos�o da Internet. A "ferida" estaria bem captada, segundo a minha amiga, numa frase forte contida nas �ltimas linhas do texto : "Se os que poderiam cuidar das pessoas necessitadas - apoiando o Estado-Provid�ncia e participando da sociedade provid�ncia - cuidam dos animais e da Internet, quem vai cuidar das pessoas ? E quem vai cuidar delas quando necessitarem?".Eis o que tenho andado a ocultar a quem me atura...
O problema das frases fortes �, basicamente, o mesmo da for�a em geral, que age diversamente consoante a superf�cie em que se exerce.Em rela��o a pessoas que temam o impacto social e cultural da explos�o das redes electr�nicas mundiais ou simplesmente n�o tenham paci�ncia para descobrir e aprender, a frase funciona como um prego : uma s�lida confirma��o do que o seu medo as leva a sentir, traduzida como "cuidado com a Internet!".
Talvez por isso, Boaventura Sousa Santos n�o se esqueceu de escrever uma frase-cautela: "N�o tenho nada contra a Internet, antes pelo contr�rio". Mas, como prova o caso da minha amiga, � uma frase fraca,primeiro porque � lac�nica e n�o evidencia as raz�es que levam a tal "antes pelo contr�rio", e depois porque surge dilu�da numa muito mais longa e sugestiva explana��o de preven��es - contra o facto de o capitalismo global "promover agressivamente o investimento na fam�lia virtual"; contra o empenhamento do Estado na promo��o do "bem-estar ciberespacial" (no preciso momento em que se procura "descomprometer do bem estar real dos cidad�os"); contra o desinteresse dos possidentes que em vez de cuidarem das pessoas necessitadas parecem mais propensos a investir em bichos e Internet.
Mesmo abstraindo do efeito que possa causar em superf�cies suaves, a frase-forte parece-me carregada de coisas cuja demonstra��o n�o � feita no texto e , em vez de iluminar, ajuda a ocultar o essencial da mudan�a em curso.
Deixo de lado a quest�o animal ( embora o fa�a a contragosto e cheio de perplexidades: h� pobres que tamb�m andam malucos com a febre de ter bichos;h� possidentes que se est�o nas tintas para animais e para a Net; h� casos de grande amor ao Bobby e grande solidariedade em rela��o a humanos; h� ricas e pobres que nem querem meninos nem animais e tamb�m o contr�rio...).
O novo "�pio do povo" �, afinal, a Internet, disseminada pelo capitalismo global?N�o o diz Boaventura de Sousa Santos (embora possa haver quem tenha entendido - mal - isso mesmo). Se �pio fosse, seria contra ele como � contra o propriamente dito. Mas n�o � contra, "antes pelo contr�rio". Anota apenas a "promo��o agressiva". N�o � uma caracter�stica geral,por�m. Recorrendo a uma teoriza��o celebrizada pelo autor, nas sociedades semiperif�ricas a promo��o tem sido chocha e nas perif�ricas quase nula.
� verdade que, em poucos anos, pass�mos de um punhado de utilizadores no privilegiado "establishment" americano para um universo de mais de 50 milh�es de cibernautas interclassistas, em 134 pa�ses. Tal n�o decorre, por�m, apenas da promo��o mercantil agressiva :al�m de ter nascido, com pecado, dos esfor�os do aparelho militar americano pago pelo or�amento do Estado, foram gastos milh�es de d�lares, francos, marcos, libras e, a partir de 1996, escudos dos cofres p�blicos para levar a Internet �s escolas, empresas, lares, com o objetivo inequ�voco de abrir caminho a formas de comunica��o sem as quais ficar�amos condenados a desconhecer as vantagens t�picas das sociedades de informa��o.
Sem a Internet , n�o vejo como possa ter lugar a tal "alfabetiza��o de massas" que � condi��o de modernidade. E n�o � certo que sem essa alfabetiza��o podem gerar-se os funestos hiatos entre elites culturais e maiorias sociol�gicas a que aludiu certeiramente na passada semana outro soci�logo, Manuel Villaverde Cabral, perante um audit�rio interessado no tema "Portugal no fim do mil�nio"?
Os possidentes ajudariam mais os pobres se "surfassem" menos? Nada menos certo...
"O capitalismo global cujas exig�ncias destroem as comunidades e tornam a vida familiar cada vez mais dif�cil promove agressivamente o investimento... no livro"? A frase-forte que BSS dedica � ainda misteriosa Internet soa logo estranha e n�o escapa ao "teste do livro", essa coisa que no seu tempo gerou a "revolu��o Gutenberg", cujos efeitos j� assimil�mos, mas que ningu�m toma por explic�vel assim t�o simplesmente.
A mudan�a em curso tamb�m resiste a explica��es desse tipo. Como recentemente alertou Martin Bangemann (www.ispo.cec.be/infosoc/promo/speech/venice.html), ela � caracterizada pela globaliza��o (um quadro em que as fronteiras e dist�ncias geogr�ficas perdem relev�ncia e requerem novas formas de coopera��o internacional),pela converg�ncia (essa dissolu��o das diferen�as entre telecomunica��es, audiovisuais e computadores ) e pela omnipresen�a das redes electr�nicas sem centro e sem autoridade suprema de controlo.
Qual o papel que deve caber � autoregula��o neste nov�ssimo contexto? Qual o papel das leis, dos tratados - isto �, dos Estados? Que voz pode caber aos cidad�os e organiza��es sociais na defini��o dos caminhos a percorrer para que o Estado n�o se descomprometa da tarefa de propiciar o bem estar (muito real!) gerado pelas novas ciberferramentas do saber,da economia e da cultura?O ciberespa�o gera solid�o ou antes permite geri-la melhor, fazendo ponte entre pessoas que em "sociedades desligadas" estariam condenadas ao isolamento?
Em todos estes dom�nios Boaventura de Sousa Santos pode ajudar-nos a pensar. O dedo de Bangemann n�o chega para apontar todas as feridas do nosso futuro, mas toca em muitas das essenciais. � urgente que um dos mais l�cidos soci�logos do nosso tempo as olhe tamb�m de frente e em profundidade.
At� l�, vou continuar a fazer "esfor�os danados para ocultar aquilo" e n�o vou p�r na rua o meu c�o.
-----------------------
Coment�rios para zmaglh@ps.parlamento.pt
BOTIC�RIOS NO HIPERMERCADO VIRTUAL
Por Jos� Magalh�es
� previs�vel que o debate sobre a venda de medicamentos em grandes superf�cies comerciais de Portugal se fa�a com grande berraria e bipolariza��es demonizantes (na farm�cia actual,seguran�a total;no hiper, pandem�nio mortal). Pode at� acontecer que a dupla MR/PP veja no tema um bom ensejo para garantir que se trata de um neg�cio "abomin�vel"entre o n�o menos detest�vel Estado-rosa e os putrefactos grupos econ�micos que vampirizam a Fazenda p�blica e chupam o sangue dos pobres. Estes acorrem em massa aos templos do consumo devido ao seu "atraso cultural" (esta explica��o � a mais recente descoberta cient�fica do brilhante dr. Dur�o Barroso) e se l� houvesse medicamentos correriam riscos formid�veis e, de resto, inevit�veis dada a atmosfera hipn�tico-extorsionista t�pica dos hipermercados.
Entrando-se por esta linha de racioc�nio falacioso, o rol de pavores � infind�vel.A barragem de medo �,por�m, sinal n�o apenas de uma maneira horrenda de fazer pol�tica, mas tamb�m de uma resist�ncia in�til aos ventos que est�o a mudar a pol�tica de medicamentos em sociedades como a nossa.
De facto, a globaliza��o e as redes electr�nicas n�o poupam o mundo farmac�utico e este tem � sua frente m�ltiplas op��es salvo a de continuar como tem sido.
O sector vive do monop�lio da venda de medicamentos comparticipados sujeitos a prescri��o m�dica - um neg�cio seguro, sempre em crescimento, valendo milh�es (mesmo que pagos com atraso).Em sociedades onde a perfei��o, o bem estar e a performance se transformaram em aspira��es m�ticas e bens de primeira necessidade, nenhuma d�vida h� sobre o futuro da ind�stria e da sua m�quina distribuidora. O regime especial�ssimo em vigor funda-se numa exig�ncia deontol�gica: s� profissionais com um c�digo de conduta apropriado podem proteger a sa�de dos consumidores.
Essa exig�ncia deontol�gica afigura-se-me inarred�vel.Tudo o mais pode mudar e j� est� de facto a mudar.
H� tempos, tive de aviar uma receita de nifedipina numa cidadezinha da periferia de Chicago. Escolhi o supermercado aberto 24 horas por dia mais pr�ximo de casa. L� estava, ao fundo, o balc�o onde um farmac�utico registou os dados constantes do papel assinado pelo m�dico, perguntou-me se estava a tomar outros medicamentos e quais,avisou-me para n�o beber sumo de uva nas duas horas posteriores � ingest�o de cada comprimido e pediu-me para ler o papel que anexou ao frasco de comprimidos. O texto em causa, personalizado,impresso por computador � minha frente e com os meus dados (n�mero de cliente, morada,m�dico assistente), descrevia o medicamento, as regras para o tomar e as contra-indica��es.Descobri mais tarde uma coisa essencial para quem toma medicamentos de uso continuado : o meu n�mero de cliente serve para encomendar via Internet as "recargas",devidamente autorizadas na receita origin�ria.
N�o h� nisto nenhuma maldi��o, mas antes o uso inteligente de uma tecnologia que simplifica e aproxima, sem ferir a deontologia.Ao inv�s, o facto de largu�ssima parte das farm�cias portuguesas viver no s�culo XIX, n�o d� mais conte�do humano � rela��o com o cliente - apenas compromete a qualidade do servi�o prestado, tornando-o "porreirista" (simpatia vazia de conte�do e at� dispon�vel para vendas sem receita) ou mec�nico e mercantil (garante-se que o medicamento fique pago, mas n�o que o doente seja bem tratado,protegido da sobremedica��o e dos efeitos adversos).
O facto de n�o haver farmac�uticos numa sec��o pr�pria algures num supermercado num centro comercial ( mas poder haver no mesmo shopping uma farm�cia a um metro do hiper) n�o resulta de uma lei divina e imortal, mas antes de um conflito entre distribuidores de olhos postos no mercado dos comparticipados. O Estado deve arbitrar esse conflito com soberana indiferen�a pela vozearia (e pela hipocrisia) e com ganho para o consumidor (baixa de custos, melhoria de apoio).
Enquanto essa guerra mi�da fervilha, a Internet avan�a a perturbar dogmas. J� se sabia que ela servia para dar aos farmac�uticos mellhores condi��es (informa��es sobre medicamentos,monografias e artigos cient�ficos,revistas e boletins,acesso � MEDLINE e outras bases de dados,informa��es sobre eventos,grupos de discuss�o cl�nica/cient�fica,etc) e para dar aos doentes uma fabulosa melhoria no acesso � informa��o (medicina preventiva, alertas sobre sintomas e tratamentos, conselhos sobre auto-medica��o, grupos de entre-ajuda de pacientes,perguntas e respostas sobre sa�de). S�o mesmo poss�veis aplica��es interactivas (contactos directos com o farmac�utico e deste com o doente,pedidos de amostras, encomendas,comunica��o de efeitos adversos, campanhas de sa�de - vg. de vacina��o contra a gripe). Para a Administra��o P�blica -nacional,comunit�ria, internacional - o potencial a explorar � enorme (legisla��o online, informa��es t�cnicas,tabelas de pre�os,formul�rios, acesso a bancos de dados,combate a erros de medica��o, fichas sobre empresas - distribuidoras ou fornecedoras de mat�ria prima, embalagens, equipamento - boletins informativos, an�lises de mercado, informa��o sobre certifica��o de produtos e ensaios cl�nicos).
Mas com o advento do com�rcio electr�nico surgiram as farm�cias virtuais - o quebra-cabe�as do fim do mil�nio.N�o me refiro � modesta home-page da Farm�cia Al�pia na Internet com o retrato do propriet�ria, a lusa botic�ria "electr�nica" em constru��o.Nem tenho em mente a decente p�gina do www.INFARMED.pt ou a austera rotundidade da www.anf.pt (a nossa Associa��o Nacional das Farm�cias virtual tem menos informa��o �til que a p�gina aberta por Carvalhas e Tavares, de borla,em www. geocities.com/HotSprings/Spa/6896/pharm.html).
Refiro-me a coisas pesadas.A www.planetrx.com celebrou um contrato para servir preferencialmente os 15 milh�es de clientes da America Online (ainda n�o abriu e j� oferece cup�es de desconto aos futuros clientes).A Postal Prescription Services (www.ppsrxbymail.com) vende j� para todo o mundo, mas exige receita e obedece � malha apertada de regras federais e estaduais norte-americanas.Mais laxista � a "farm�cia " a que se acede via www.thepillbox.com.
(ver mais links em http://www.pharmacyandyou.com/, em www.pharma.net ou nos deliciosos www.pdr.net/gettingwell e www.ismp.org, este dedicado ao combate � m� medica��o).Inevitavelmente, h� tamb�m salafr�rios que prometem a cura do cancro, virilidade invej�vel, cabelo farto, brilho intelectual, for�a de H�rcules e mil outros sonhos com desconto (no sistema "pague primeiro,receba talvez,sofra como sempre"). E h� quem se apodere de dados �ntimos para dominar os mercados, pressionar os Governos, incentivar maiores consumos. Como proteger os cidad�os neste novo ambiente digital e global? Esse � o grande debate.O outro � um debate porventura ruidoso, mas pequeno.
CR�NICA BRASILEIRA:
"SI S�MI�,D�..."
por Jos� Magalh�es
"Si s�mi�,d�".Lembrei-me disto n�o tanto devido � triunfal visita de Jorge Sampaio ao Brsail , mas porque o meu pai costuma citar, imitando o sotaque, este c�lebre dito brasileiro para ilustrar a atitude perante a vida e as suas dificuldades.Quando se faz o que � preciso, os resultados surgem.Mas como arranjar for�as para fazer o que � preciso?O pregui�oso e o inepto sabem frequentemente o que � preciso, mas falta-lhes �nimo e capacidade de ac��o.
A TV GLOBO tem, pelos vistos, ambas as coisas e muitas outras!O que semeou, vai dar.A partir do dia 22 de Setembro a� est�, via cabo e parab�lica, a TV
Futura, o primeiro canal brasileiro dedicado exclusivamente � educa��o. O
slogan promocional n�o � modesto ("O Canal do Conhecimento"), mas, por uma vez, n�o � exagerado. V�o ser 16 horas di�rias de programa��o gratuita em dom�nios como a educa��o e a forma��o profissional.O esquema utilizado � superlativamente inteligente.
Em primeiro lugar, ciente de que a sua poderosa m�quina de fazer telenovelas n�o bastaria para municiar um canal educativo , a Globo optou por reunir parceiros de qualidade.J� tem onze , entre os quais a Funda��o Ita�, o Bradesco, a Votorantim,a Confedera��o Nacional de Transportes, a Confedera��o Nacional de Ind�strias, a FIESP, a Rede Brasil Sul, o Instituto Ayrton Senna e ...a CNN.Uma rede de entidades privadas do mundo f�lmico encontrou aqui uma carteira de encomendas relevante, como a s�rie de 20 programas com o t�tulo "Alfabetizando", que a produtora paulista Vista Filmes est� a preparar.
Em segundo lugar, deu-se uma prova de realismo e esp�rito pr�tico: como h� cerca de milh�o e meio de domic�lios com cabo e 3,5 milh�es com antenas parab�licas � nessas zonas que a experi�ncia vai arrancar. As demais �reas ficar�o dependentes de arranjos com entidades locais que manifestem interesse em participar, tanto empresas, como governos municipais e ONGs para facilitar essa expans�o.
Em terceiro lugar, uma vez que de pouco serviria emitir para o vazio de espectadores, assegurou-se uma rede de apoio e utiliza��o, composta por escolas, museus, bibliotecas, pris�es e hospitais , que v�o disponibilizar tele-salas e servir de "agentes multiplicadores".
Multiplicadores de qu�? Esta quest�o crucial � frequentemente mal equacionada por parte de entusiastas do "tele-ensino" e foi aqui, segundo tudo indica, bem resolvida.
A TV Futura difundir� programas destinados a telespectadores com graus de instru��o distintos, pertencentes a diversas faixas et�rias e com capacidades de aprendizagem diferenciadas.
Ser� dada prioridade � alfabetiza��o de adultos e � actualiza��o de professores, complementando o que os sistemas j� existentes oferecem.
Haver� depois programas de educa��o informal, dirigidos a estudantes do primeiro e segundo graus e ao ensino profissionalizante. Quanto a este �ltimo, trata-se de dar continuidade a experi�ncias anteriores como o ``Telecurso 2000'', emitido desde 95.
Os notici�rios ser�o feitos de forma acess�vel (desafio curioso comparar esses com os outros e verificar o impacto disso no plano pol�tico). Sensatamente, a GLOBO vai romper com as prelec��es professorais chatas t�picas do anterior ``Telecurso 2� Grau''. Far-se-� uma novela a partir de uma situa��o do dia a dia e a partir dela ser�o extra�das li��es e no��es, numa �ptica educacional e de cidadania.
As �reas tem�ticas estar�o em cont�nua expans�o, articuladas com mat�rias conexas � educa��o ( desde cursos e concursos de todas as regi�es, sa�de,desporto, informa��o sobre o mercado do trabalho) e obedecendo a uma preocupa��o de diversidade regional e pluralidade (h� muitos brasis no imenso Brasil!).
N�o seria poss�vel fazer tudo isto no prazo dispon�vel s� com materiais in�ditos e sem recorrer aos arquivos da Globo e da Funda��o Roberto Marinho. A palavra de ordem n�o foi, por�m, "REPETIR", mas sim "RECICLAR" . As reportagens e s�ries gravadas h� anos v�o ser reformatadas e revistas para serem convertidas em aulas de literatura, hist�ria, geografia (usando os programas Globo Rep�rter, Globo Ci�ncia e Globo Ecologia).
Se tivermos em conta que a Internet est� a ter no Brasil uma expans�o not�vel, com o aumento exponencial do n�mero de utentes e o aparecimento de espectaculares arquivos digitais (experimente http://www.uol.com.br/fsp/arquivo.htm), � bom de ver o sentido da li��o que nos vem do outro lado do Atl�ntico.
E s�o inevit�veis as compara��es cru�is .Onde est� o nosso canal educativo na TV CABO? Onde est� o CANAL INTERNET?Quando � que a r�dio passa a ser usada para este tipo de efeitos educativos?
Quem vai secar os suores frios que a palavra Internet ainda gera em muitos dos nossos professores agora que as redes est�o a chegar �s escolas?
"Si s�mi�, d�",dizem eles com aquele sotaque fant�stico.Dizemos n�s, pessimist�es e mais quadrados: "Quem n�o semeia, n�o colhe".� exactamente assim ...
O FIM DO MAR
Por Jos� Magalh�es
No s�bado de manh�, no termo do encontro que fundou o F�rum permanente dos Parlamentos de L�ngua Portuguesa, Almeida Santos leu em voz alta o extenso texto que selou o compromisso de explora��o conjunta das potencialidades das Redes Electr�nicas para refor�o da coopera��o interparlamentar.
� volta da mesa da velha Sala D. Maria, os parlamentares de �frica, Brasil e Portugal aplaudiram e o Presidente da AR n�o resistiu a comentar : "que programa de ac��o!D� at� 2050!".
Descontado o facto de ningu�m poder imaginar como ser� a democracia representativa daqui a meio s�culo, a observa��o real�a a ambi��o das metas fixadas e serve para n�o dourar a p�lula das dificuldades a enfrentar. De facto, nos v�rios pontos da vasta CPLP � muito desigual a penetra��o das novas tecnologias de informa��o e o maturidade das estrat�gias nacionais para constru��o de sociedades de informa��o.
Agora pactuou-se, por um lado, o estudo conjunto dos novos problemas jur�dicos colocados pela "revolu��o digital", sublinhando-se que n�o devem ser resolvidos � margem dos parlamentos.Por outro lado, foram definidas formas de tirar bom proveito das novas ferramentas.
Como na botica milimetricamente descrita por Camilo, a lista dos objectivos "utilit�rios" � longa e cheia: acesso rec�proco �s aplica��es e informa��es das respectivas redes; uso crescente do correio electr�nico; produ��o e acessibiliza��o de bases dados (v.g. sobre leis,iniciativas pol�ticas, biografias, patrim�nio art�stico e hist�rico); cria��o de um arquivo digital de Direito Comparado dos Pa�ses Lus�fonos; est�mulo � produ��o de aplica��es e documentos multim�dia em l�ngua portuguesa que facilitem o conhecimento das institui��es parlamentares; cria��o de uma Galeria Virtual do Parlamentos de L�ngua Portuguesa, para exposi��es eventuais e permanentes; experi�ncias de teletrabalho entre parlamentares e entre altos funcion�rios; identifica��o conjunta de novas necessidades na inform�tica e telem�tica de gest�o parlamentar (vg. simplifica��o administrativa, automatiza��o de procedimentos, gest�o de equipamentos, controlo de despesas); coopera��o na forma��o de recursos humanos; conjuga��o de esfor�os na Uni�o Interparlamentar e em outras organiza��es interparlamentares para defesa da l�ngua comum...
O que acabou de ser pactuado � muito avan�ado para quem esteja no princ�pio e muit�ssimo moderado para quem circule a grande velocidade no centro do furac�o digital.
Para perceber bem a quest�o da velocidade (e qualidade) basta pousar os olhos no dossier que a diplomacia brasileira entregou no Encontro, com subtileza h�bil, descrevendo os investimentos em curso no respectivo Senado. Como o fant�stico "comandante" que a pena de Amado imortalizou gritando"todas!" (quando a marujaria lhe perguntou "quantas amarras" poderiam preservar o navio da tempestade iminente), o Senado recorre a tudo: tem jornal di�rio (45 000 exemplares), tem ag�ncia de not�cias em tempo real, tem r�dio, tem TV ( 3 milh�es de espectadores em m�dia), tem p�ginas na Internet, tem CDROM's, tem um "n�mero verde" (0800-VOZ DO CIDAD�O)...
O objectivo confesso n�o � apenas jogar , mas sim "mudar o jogo", injectando integrais, combatendo o imp�rio do video-clip assente na formid�vel capacidade de reduzir a 5 segundos de "frase assassina" a resposta dos pol�ticos a qualquer quest�o, esteja em causa um tratado de mil artigos ou qualquer tema - probidade da Virgem,pre�o dos rabanetes, vida em Marte. Custos? Enormes: na TV, dois milh�es de d�lares o equipamento, 320 mil a manuten��o mensal, 125 pessoas, na r�dio, meio milh�o para o arranque, 68 mil d�lares mensais, 61 trabalhadores.N�o foi revelada a factura das bases de dados e da esplendorosa p�gina na Web...
Uma parceria estrat�gica com este vendaval exige perna c�lere, imagina��o e meios. Mas � esse o desafio - formid�vel. Ao selar o acordo, foi nessa nau que Almeida Santos nos meteu.Agora que a Net nos trouxe o fim do mar, nunca foi t�o necess�rio remarmos como danados!
"CAM�ES NOUTRA DIMENS�O"
Por Jos� Magalh�es
"O Pavilh�o da Realidade Virtual apresenta CAM�ES NOUTRA DIMENS�O". Repararam neste an�ncio berrante, de p�gina inteira, que anda pela imprensa?
Li-o umas tantas vezes e nunca liguei demasiado � ret�rica promocional: "Uma aventura �nica, num novo espect�culo cheio de sensa��es do outro mundo .Uma viagem com experi�ncias alucinantes e intemporais. Uma nova forma de aprender com personagens da nossa Hist�ria, contos e lendas e com alguns factos que elas pr�prias apresentam. Venha ver os novos mundos, sob o olhar de Cam�es".
Dei o devido desconto e fiquei a magicar sobre se se trataria realmente de uma nova aventura de um dos mais inovadores pavilh�es da EXPO98. Na primeira ocasi�o, l� fui de rebentos atr�s, na mira de uns bons minutos de pedagogia virtual.
No escuro da cripta do Parque das Na��es, v�ria gente sofria como n�s, na fila de espera, dando uma nota de fadiga ao r�seo quadro de "fam�lia & lazer" em que assenta a f�rmula m�gica de todas as Disneyl�ndias.
Finalmente, conseguimos os bilhetes : adultos a 1500 por cabe�a; juniores (dos 6 aos 17 anos) e s�niores (+ de 65) 750;fam�lias (2 adultos + 2 juniores) 3750.Entre alguns turistas e quase quarenta nacionais esper�mos calmamente pela hora da entrada.
A estrutura do Pavilh�o permite construir um pequeno labirinto com v�rios espa�os e fazer os visitantes percorrer, uma a uma, essas zonas criadas num interior, em que por momentos , no escuro e na expectativa de coisas novas e nunca vistas, ficam separados das luzes do mundo de todos os dias. � uma metodologia correcta, tanto na gest�o da curiosidade, como do "corte" com a realidade, que faz parte da ess�ncia de qualquer espect�culo do g�nero.
No CAM�ES NOUTRA DIMENS�O, o corte come�a com a entrada num simulacro de portal lisboeta, da �poca em que o poeta deambulava pela cidade, bom conhecedor de vielas e at� da pris�o do "Tronco",onde ficou hospedado uns bons tempos, at� Mar�o de 1553.
Os excursionistas sobem uma pequena escadaria, d�o entrada num p�tio alfacinha, sentam-se e ficam na penumbra.H� janelas a toda a volta e durante minutos h� uma "imers�o" natural no ambiente de p�tio, cresce a expectativa,n�o acontece absolutamente nada, mas (� a� que est� o segredo!) parece que tudo pode acontecer. Ningu�m estranharia se aparecesse o poeta, de olho bandado, a linguarejar em cal�o do s�culo XVI!
N�o h� poeta ca�do dos s�culos, mas no escuro brilham de s�bito as janelas e o espect�culo come�a. Nas janelas h�, de facto �cr�s onde s�o projectadas, a partir de dentro, imagens de imagin�rios moradores do presente. Uma t�pica conversa entre um mi�do reguila dos dias de hoje e um outro morador adulto e s�bio qb. anuncia o tema da viagem e prepara as cenas seguintes, passadas 4 s�culos atr�s.
O salto no tempo � razoavelmente conseguido, pelo efeito conjugado do relampejar de janelas, em que ,de fatiota apropriada, nos aparecem, com bom recorte, supostos alfacinhas da capital do imp�rio, aludindo aos rumores que circulam no burgo sobre a l�bia do bardo e a sua vida "de carne e de sentidos", repleta de conquistas femininas obtidas com as armas da poesia.
Nada h� de virtual, mas simplesmente um uso escorreito de meios tradicionais, incluindo uma decente projec��o (num len�ol pendurado � varanda) do filme an�ncio do "Cam�es", de Leit�o de Barros, expediente atrav�s do qual se obt�m( sem gastar muito em direitos de autor) algum cheiro a batalha e informa��o sum�ria sobre o famoso olho perdido, algures no norte de �frica. Um fadinho breve sublinha, a preceito,a mensagem essencial.
Criado o clima, os excursionistas levantam-se, marcham um pouco e sentam-se de novo, agora numa saleta normal�ssima de cinema, com bancos e �cr�, onde � projectado um filme em que, na primeira pessoa, o poeta ele pr�prio narra alguns epis�dios da sua vida aventurosa. A ac��o deriva velozmente para o Oriente, com alguma anima��o de desenhos a tinta da China para recriar uma ba�a e casario circundante, sugerindo Macau, forma pr�tica de evocar a lenda que d� o poeta como tendo l� posto p�.
Novo erguer da excurs�o, por uma passagem oriental, at� ao terceiro e �ltimo anfiteatro. H� que sentar numa esp�cie de barco, empurrar contra o corpo a barra de seguran�a e esperar. Antecipa-se que vem a� movimento, o �cr� � alto e grande, h� pessoal a assistir os passageiros. Sil�ncio, escurid�o, ac��o!!!
Durante alguns minutos, balou�amos no alto mar, chocamos contra navio pirata, naufragamos, vemos balas de canh�o cruzar os ares, chocamos de novo, descemos vertiginosamente a crista da onda, vemos na tela o fundo do mar. Pelo �cr� desfilam barbaridades hist�ricas: Cam�es � metido no meio de uma viagem ao Jap�o, onde um shogun negoceia tratado de com�rcio e oferece ta�a de oiro. � essa ta�a que o bardo surge a salvar.Deitado numa jangada, ap�s emocionante naufr�gio, borrifa-se para "Os Lus�adas" e agarra-se ao oiro. Em off fecha o filme e a viagem, deixando aos que partem uma mensagem optimista sobre a vida, sempre "cheia de oportunidades".
Tecnicamente, nada h� a objectar ao dispositivo, que usa t�cnicas frequentes nos simuladores : movimento conjugado na tela e nos assentos permite sensa��es fortes sem risco algum, subir "sobre vagalh�es", cair a pique, ondular. A imagem � suficientemente (n�o brilhantemente) n�tida para gerar ilus�o visual, o movimento faz-se sem exageros, tornando-o pr�prio para todas as audi�ncias, card�acos ligeiros inclu�dos.
Do ponto de vista hist�rico, por mais que a vida do poeta esteja envolta em trevas e mist�rios, a japanese connection � uma tonteria. O que parece razoavelmente apurado � que naufragou no rio Mekong (Vietnamne/Cambodja), onde se salvou por uma unha negra, com "os cantos molhados". Diz Diogo de Couto( mas sabe-se l�!) que se afogou tamb�m a� a bela Dinamene, com a qual o poeta estava " muito obrigado", ou seja, enrolado, no linguarejar pouco subtil dos dias de hoje.
� um bruto mist�rio aquela estranha japoniza��o de Cam�es. Ser� que as sequ�ncias s�o adapta��o mais ou menos h�bil de uma hist�ria filmada para outro her�i com curr�culo nip�nico e j� sincronizadas com os saltos dos cadeir�es?
De qualquer modo, quando regressa a quietude e os viajantes s�o convidados a regressar ao s�culo XX, toda a gente apresenta um ar satisfeito. N�o � uma viagem com experi�ncias alucinantes e intemporais.
N�o h� um miligrama de realidade virtual, mas sempre se pode alegar que Cam�es surge "noutra dimens�o". Mas o balan�o s� ser� negativo para quem julgar que a feira popular � uma academia.
Haver� fam�lias que saem dali e jurar�o l� no bairro que o poeta bebia tintol na ta�a de ouro do Shogun. Mas tamb�m pode ser que, nos apertos do "quem quer ser milion�rio", se lembrem que foi ele que escreveu Os Lus�adas e n�o desliguem a TV quando passar o filme do Barros..
Sugiro pre�os de saldo para escolas: os professores podem facilmente corrigir os buracos da hist�ria, se � que os putos sacudidos pelo simulador descem a terra nas horas seguintes .

<< Home