Sexta-feira, Abril 16, 2004

"SAMPAIO.PT versus Big Brother" -
ou A batalha pela qualidade da democracia
Por José Magalhães


Houve estranhas zonas de vazio no debate público que o programa Big Brother suscitou em Portugal. Nunca avultou,por exemplo,o facto de o Big Brother ter gerado o pico dos picos na procura de Internet, ficando inscrito no almanaque do ano 2000 como um dos acontecimentos mais relevantes.Em plena campanha eleitoral presidencial, marcada ela própria por um acréscimo do uso da Net para efeitos políticos, esse "pico desprimoroso" do BB vem simbolizar um dos reptos com que se defrontará a política na transição para a era digital.
Como dizia com orgulho tecnocrático o jornalista Paulo Bastos,no programa de auto-avaliação difundido pela TVI no rescaldo do evento, uma equipa aguerrida, visivelmente juvenil, debitou 5000 notícias ao longo da maratona, geriu espaços de chat, deitou-se a sonhar com a ficha psicológica de cada concorrente para, ao acordar, inventar novas funcionalidades e notícias, reviu constantemente o grafismo, ampliou e robusteceu a infraestrutura tecnológica (derrubada inicialmente pelo ímpeto dos infonautas). Nunca ninguém tinha chegado a estes números em Portugal e poucos previram que a "espionagem da casa" fosse capaz de motivar uma vaga tal de consumo.
Muita dessa cegueira é atribuível à vontade de não ver, fundada em receio de concorrência ou em preconceito.Tive a fortuna de não poder ser afectado pelo primeiro factor, que levou destacados "capitães da indústria" televisiva a a lavrar, em meados de Setembro,sentenças terrivelmente anuladas pela realidade sobre as "audiências baixíssimas" de "um dos programas mais ridículos da Televisão".

O grande risco de cegueira analítica resultava,porém, de um outro factor, que afectou epidemicamente a maioria dos observadores com banca aberta : as divergências éticas ou de gosto levam a "colocar debaixo do tapete" indícios, sinais do que se receia ou destesta. Por isso, os sinais do "boom" electrónico induzido pelo Big Brother foram ignorados. Mas eles estavam à vista e pude assinalá-los no Flashback: um laboratório de devassa humana pondo ao alcance do olhar 120 dias de "Big Aventura" ( "o dia-a-dia dos residentes, as suas emoções, tarefas, amores, discussões") , investimentos elevadíssimos numa infraestrutura comunicacional sofisticada, promoção intensíssima na antena (usando para uma "causa" comezinha a mesma fórmula que a TSF aplicou ao grande evento de 1999 - a cruzada electrónica por Timor Lorosae!). O esquema tinha e tem uma outra vantagem: todos os ventos empurram a mó do BB. Há vento crítico que empurra tanto ou mais do que os panfletos promocionais.Podem mesmo gerar-se espectaculares efeitos preversos de simpatia popular da massa espectadora em relação aos "residentes" e de rejeição dos anti-BB. Nesse sentido cada anti-BB "enragé" tem várias vezes mais potencial promocional que os babados do programa.

Numa recente reflexão ("Por Que Razão Se Sabe Tão Pouco Sobre o Big Brother ?",Público,4.01.01), JOSÉ PACHECO PEREIRA pôs o dedo numa ferida óbvia quando assinalou que sendo o Big Brother "sobre dinheiro e poder", só o "tabu judaico-cristão sobre o dinheiro" leva alguns a julgá-lo "coisa suja", razão pela qual devemos antes estudar a questão na óptica do poder e dos mecanismos que o geram.
É fácil de mais,porém,saldar a questão assinalando que a SIC foi derrotada e a RTP humilhada, prevalecendo a estratégia endemolizante da TVI. De facto, há derrotas benditas e humilhações honrosas porque fundadas em princípios decentes (desde logo a ideia de que "vale tudo" não é uma regra de conduta aceitável).
A verdade é que, independentemente de tais linhas de reflexão ética, há um resultado prático puro e duro: o coice do residente chutador fez manchete subalternizadora do lançamento da candidatura presidencial mais relevante do nosso xadrez político e o website do BB consegue audiências que nenhum site político alcança.

Nesse sentido há uma redução do "espaço da cidadania" a favor do "espaço da aventura lúdica" . Ora esse fenómeno só pode gerar inquietação. A redução do império da política-política a favor da política-diversão é um sério problema na óptica da qualidade da democracia.
O advento da TV & Net ao serviço da "endemolização das massas" representa a versão digital do pior pesadelo do século XX.Antes da queda do muro de Berlim, o populismo cloroformizante servia cada um dos dois campos em batalha mundial, de forma previsível e com mecanismos de poder bem definidos. Na era pós-guerra fria, a desordem comunicacional e os realinhamentos ideológicos misturam-se com a crise das democracias representativas .Fervilham os poderes fácticos imunes aos sistemas de fiscalização laboriosamente construídos pelos Estados de Direito.
O mercado dita soluções, mas influencia muito mais do que a economia comunicacional, porque gera efeitos políticos que as ferramentas da política-que-há não sabem administrar.Desde logo, a velha ferramenta que é a lei revela-se de uso difícil. Não é possível "proibir o Big Brother",mas sobretudo não é possível impor legislativamente que os programas de cidadania tenham audiência máxima garantida.

No site de Jorge Sampaio há informação em directo e até uma pioneiríssima rádio online, emitindo com notável qualidade música e notícias, entre outros sobejos motivos de interesse. Só que pondo a par http://www.sampaio.pt/ e www.tvi.iol.pt/bigbrothertvi/entrada.html, o contador não engana quanto aos picos de audiências.

Com reagir a este estado de coisas?

Concordo com Pacheco quando sustenta que há que submeter a escrutínio a forma como os poderes novos actuam,confrontando-os com a miséria dos seus mecanismos e suprimindo assim as ilusões que disfarçam as engrenagens da fabricação da aparência. Acho muito bem que se acentue a responsabilidade dos profissionais que participam nas experiências ao vivo com gente de carne e osso submetida por contrato a bombardeamentos emocionais e a engenharia psicológica. Não julgo que seja impossível pensar em limitações legais adequadas (vg. no sentido da publicidade obrigatória das regras e contratos, da fiscalização da saúde mental e de outros direitos dos residentes ou do acompanhamento das votações populares por entidade isenta, evitando a grosseira falsificação).

Mas sobretudo há que não depor armas em defesa da cidadania, valorizando a política como forma superior de decisão do futuro humano e combinando velhos e novos meios para realizar essa tarefa essencial se não queremos uma sociedade suicidária . Não me choca que se queira discutir as fraquezas sexuais da Marta com paixão, desde que a política da paixão não substitua a paixão da política.
Por isso não gastei tempo a "condenar o Big Brother" e o seu êxito electrónico.Julgo que há mesmo aí um sinal que importa ler, para acelerar o bom uso da Net para efeitos democráticos.
A verdade é que a política electrónica está a dar os primeiros passos, a velocidade lenta de mais e com tropeções. Não faltam sequer episódios de infantilidade e vazio de pensamento político de que se tornou expoente a JSD. Tardou a chegar à Net, mas quando lá arribou foi para fazer um site grotesco com partes femininas expostas tipo Frankenstein (lembram-se?), a que se seguiram as cenas actuais do "Picó Jorge" e ordinarices similares. É a prova de que a Net não miracula a tonteria política: limita-se a dar ao lixo político um suporte novo, do qual só pode esperar-se, em versão electrónica, a pior face da velha política.
Num mundo em que haverá cada vez mais "poderes Big Brother", o pior de tudo seria que os políticos tentassem manter o seu poder ameaçado à custa da endemolização desenfreada da política.Jorge Sampaio seguramente nunca o fará e é, entre os políticos portugueses, aquele que mais rigor e lucidez revela no necessário combate pela qualidade da democracia.